Ligação metálica & Saturnismo.

26/12/2018

Os metais constituem o grupo mais numeroso de elementos químicos, que podem ser observados na Tabela Periódica. Já foi enfatizado que os elementos metais tiveram grande importância na evolução da humanidade, marcando período, como idade do cobre, idade do bronze, idade do ferro.

Alguns metais, como sódio (Na) e potássio (K), estão dissolvidos na água do mar. Os demais precisam ser extraídos de jazidas que se encontram acima ou abaixo da superfície terrestre, em depósitos. Alguns são tão pouco reativos que é possível encontrá-los em estado puro, como a prata (Ag), o ouro (Au) e a platina (Pt). Já em 3000 a.C., os Sumérios sabiam obter cobre e ligá-lo ao estanho, produzindo o bronze. Assim, substituíram armas e utensílios de pedra por metal. Posteriormente, o bronze, foi sendo substituído pelo ferro. As flechas de ferro deram muito eficiência a caça, o uso do ferro no arado, em 1000 a.C., mudou de forma espetacular a agricultura, enquanto que ferradura e aros de metais em rodas melhoraram os primeiros meios de transportes terrestres.

Ferramentas de ferro, tais como martelos, serrotes, plainas e pregos implementaram a construção civil. Isso sem falar dos utensílios domésticos, das armas, etc. A descoberta de que a adição do carbono ao ferro seria capaz de melhorar ainda mais suas propriedades, levou o aço a representar um novo salto na utilização dos metais.

Outra propriedade dos metais é sua capacidade de conduzir a corrente elétrica de um ponto a outro, foi amplamente usada em cabos de cobre, sem os quais não teria sido possível eletrificar cidades e povoados. Outros metais importantes são os chamados metais preciosos, como o ouro e a prata, usados desde a antiguidade na fabricação de jóias e moedas. Há uma variedade de outros metais, cada um com propriedades específicas, usados para fins especiais:

• Alumínio: usado em veículos e esquadrias (janelas) devido à sua baixa resistência à corrosão; 

• Sódio e o mercúrio: usados em lâmpadas incandescentes a vapor;

• Zinco, o cádmio e o mercúrio: usados nas pilhas elétricas;

• Chumbo: usado em placas e paredes graças à sua propriedade de bloquear radiações;

• Cálcio: muito usado na neutralização da acidez do solo, além de ser um constituinte de ossos e dentes.

Agora sob o ponto de vista da configuração eletrônica, todos os metais têm poucos elétrons na camada de valência, o que determina uma grande facilidade desses elétrons se moverem na camada quase vazia. Isto provoca em cada átomo um certo afastamento dos elétrons na camada de valência.

Uma das principais características da ligação metálica é o deslocamento dos elétrons na camada de valência que enfatiza os metais serem bons condutores de eletricidade, como também sua maleabilidade, isto é, deformação sem ruptura.

Na substância metálica a atração entre os átomos é muito forte, o que dificulta sua dissociação (separação dos átomos), por isso chamados de metais pesados. É por esse motivo que os metais se acumulam nos diferentes níveis tróficos (cadeia alimentar - vegetais, herbívoros e carnívoros) do ecossistema, justamente pela facilidade que estes átomos ligados têm de deslocar-se sem romper o cristal (sua estrutura molecular), tornando-se tóxico e cumulativo no organismo.

Os metais pesados, como qualquer outro elemento, não podem ser destruídos e são altamente reativos do ponto de vista químico, o que explica a dificuldade de encontrá-los em seu estado puro na natureza. Normalmente apresentam-se em concentrações muito pequenas, associados a outros elementos químicos formando minerais em rochas.

Agora, quando lançados na água como resíduos industriais, podem ser absorvidos pelos tecidos animais e vegetais. Já que deságuam no mar,estes poluentes podem alcançar as águas salgadas e, em parte, depositar-se no leito oceânico. Além disso, os contidos nos tecidos dos organismos vivos que habitam os mares acabam também se depositando, cedo ou tarde, nos sedimentos, representando um estoque permanente de contaminação para a fauna e flora aquáticas. Os metais pesados podem se acumular em todos os organismos que constituem a cadeia alimentar do homem. As pessoas que residem próximo a locais de indústrias ou incineradores correm maiores riscos de contaminação.

Apesar de não ser um elemento comum nas águas naturais, o chumbo (Pb) tem sido responsável por sérios problemas de intoxicação, devido ao fato de que é introduzido facilmente no meio ambiente a partir de uma série de processos e produtos humanos, tais como: encanamentos e soldas, plásticos, tintas, pigmentos e metalurgia. Há países que o chumbo tetraetila é adicionado à gasolina, esta é uma das principais fontes de poluição por este elemento. É um metal que tem efeito cumulativo no organismo, provocando uma doença crônica chamada saturnismo, hoje mais comum em trabalhadores que estão expostos à contaminação.

No passado, a taxa de intoxicação era muito elevada devido ao uso de canecas e vasilhames de chumbo. Os sintomas da intoxicação por chumbo são: tontura, irritabilidade,dor de cabeça e perda de memória. A intoxicação aguda caracteriza-se pela sede intensa, sabor metálico na boca, inflamação gastrointestinal, vômitos e diarréias.

Em crianças o chumbo provoca retardamento físico e mental, perda da concentração e diminuição da capacidade cognitiva. Em adultos, são comuns problemas nos rins e aumento de pressão arterial. Análises realizadas em amostras de cabelo de Beethoven, o grande compositor alemão, detectaram chumbo em níveis 60 vezes superiores ao comum. Alguns pesquisadores acreditam que uma intoxicação aguda por chumbo pode explicar muitas das dores que Beethoven sentia e do seu comportamento irritadiço e solitário.

Desde a antiguidade, o envenenamento por chumbo, denominado saturnismo ou plumbismo, tem afligido milhões de pessoas em nações ricas e pobres, especialmente trabalhadores expostos ocupacionalmente a este metal e crianças residentes em comunidades carentes. Além de ser encontrado no ar, poeira, água, solo e alimentos, o chumbo pode estar presente em materiais aparentemente "inocentes", como utensílios de cerâmica pintada, selos metálicos de garrafas de vinho, extratos fitoterápicos, maquiagem facial, brinquedos antigos, mamadeiras de vidro, alimentos enlatados e suplementos de cálcio.

Mas as fontes principais de contaminação por chumbo, estudadas por vários autores, são mais óbvias: tintas, baterias de automóveis, soldas, gasolina aditivada com tetraetilchumbo (banida desde 1982) e emissão industriais. Sabe-se hoje que o chumbo afeta múltiplos órgãos e tecidos, principalmente cérebro, sangue, fígado, rins, testículos, esperma, sistema imunológico e pulmões. Em crianças, à medida que aumenta o grau de contaminação (acima de 10 -6g/dL), agravam-se os sintomas: dificuldades de aprendizagem e atenção, apatia, dores de cabeça e convulsões, diminuição de QI, perda de audição, comportamento agressivo, retardamento mental, dores abdominais e nas juntas, nefropatia, anemia e, eventualmente, morte. Em adultos, são relatados na literatura médica, progressivamente: hipertensão, desordens do sistema nervoso, perda de memória, irritabilidade, dores de cabeça, encefalopatia, esterilidade e impotência, nefropatia, anemia e diminuição da longevidade.

O termo "saturnismo" é uma referência ao deus Saturno, idolatrado na Roma antiga. Os romanos acreditavam que o chumbo, "o metal mais antigo", foi um presente que Saturno lhes deu e com ele construíam aquedutos e produziam acetato de chumbo, utilizado pelos aristocratas da época para adocicar o vinho. Acredita-se que essa mistura bombástica e a conseqüente intoxicação por ela provocada seria a causa da imbecilidade, perversidade e esterilidade reconhecidas de imperadores como Nero, Calígula, Caracala e Domiciano, este último construtor de fontes que jorravam vinho "chumbado" nos jardins de seus palácios. O mundo das artes também inclui vítimas famosas do chumbo, entre eles os pintores Van Gogh e Portinari (fonte: tintas), o vitralista Dirk Vellert (fonte: vidros coloridos) e o compositor Beethoven (fonte provável: tipografia das partituras).

Fonte: https://www.crq4.org.br/informativo/fevereiro_2004/pagina06.php.