Patrimônios históricos no Mundo: entre o turismo produtivo e destrutivo.

13/12/2018

Como a Geografia, o Turismo é uma metadisciplina.

Os patrimônios históricos não só no Brasil como em outras partes do Mundo estão sofrendo com um dilema e a falta de políticas públicas próprias para o turismo, como atividades socioeconômica, sócio-histórica e cultural. O dilema está entre a produção e destruição do caráter turístico sob o espaço territorial em que se processa tal atividade. Patrimônios históricos, bem como espaços turísticos são por excelência espaços não formais de ensino - do ensino fundamental ao ensino superior. Teixeira (2014) coloca que os patrimônios históricos, aliado ao artesanato e a gastronomia (parte imaterial de tais patrimônios) potencializam a interdisciplinaridade na construção do próprio conhecimento, cujo o espaço em si (espaço não formal ou patrimônio histórico) torna-se a metadisciplina necessária para diversas atividades como a prática educativa e a prática turística (SANTOS, 1994 e 2009; TEIXEIRA, 2014).

No caso da Grande Muralha da China, a mesma deveria não ser utilizada na prática turística, mas como espaço não formal de ensino para crianças e adolescentes dos ensinos Fundamental e Médio, bem como no ensino Superior em graduações como História, Arqueologia, Geografia e até Engenharia e Arquitetura, não de modo separado, mas construído de forma interdisciplinar. Visualiza-se que tanto a prática turística não pode se desvincular da prática educativa. Segundo Ribeiro e Santos (2008:2) colocam que o turismo é um fenômeno social que se constitui como forma de deslocamento humano e social, e que depende de uma logística de funcionamento de uma rede de serviços como acessos, transportes, variedade de hospedagens, artesanatos (indústria de souvenir), gastronomia e outras tipologias de práticas turísticas. Porém, retornando aa questão da prática educativa a mesma está distante da educação patrimonial. Tal distância preocupa-se de maneira exógena, quanto ao fluxo de visitantes de fora daquele espaço material e imaterial; deixa de trabalhar de forma endógena, quanto à população local, perdendo o seu efeito multiplicador e difusor de uma prática ssócio-educativa e turística responsável e conservacionista. Um exemplo disso ocorre em uma localidade da província Argentina de Mendoza, denominada Uspallata, onde se situa a "Puente de los Incas", cuja lenda coloca sobre o rio Mendoza como curativo para os Incas, e que o monarca saiu da capital Cuzco (atual Peru) com seu herdeiro e 12 valentes guerreiros até a localidade que pertenciam a seus domínios. Para atravessar o até as águas do rio, separado pelo desfiladeiro, os guerreiros utilizaram seus corpos para fazerem uma ponte para que o monarca chegasse até o rio Mendoza para banhar seu herdeiro com as águas curativas. Quando retornou, viu que os seus guerreiros, sua escolta pessoal, tornaram-se uma ponte de pedra. Tal ponte, já mencionada, possui uma vigilância tanto exógena quanto endógena na sua conservação, prática que não é observada na Grande Muralha, onde o apoio endógeno praticamente inexiste e é altamente destrutivo (GOBIERNO DE MENDOZA, 2013).

Os bens culturais de valor histórico devem ser preservados e voltados para o turismo produtivo, que interage interdisciplinarmente com a prática educativa endógena e exógena; com os locais e os visitantes. Coloca-se um outro exemplo a Estrada Real no Brasil, que constitui em uma estrada colonial em que os tropeiros levavam o ouro e demais riquezas da Colônia para o porto no mar. O "turismo peregrino", de Petrópolis/RJ até Ouro Preto/MG, constitui-se em um caminho com rotas de estradas antigas que cruzam povoados, igrejas barrocas e a natureza, que se inicia na Mata Atlântica e finda no Cerrado, funciona como amálgama perfeito resultante da materialidade e imaterialidade do conjunto de territórios onde se processa a prática turística. A logística de transportes, recursos e hospitalidade deve ser condizente perante o caráter produtivo dos espaços turísticos, sem depredações e descaracterizações daquilo que os identificam. Machu Pichu, espaço turístico histórico por excelência, localizado nos Andes peruanos, mesmo com o turismo controlado e tendo um apelo preservacionista forte, com os anos, mesmo esta prática controlada poderá colocar em risco o próprio patrimônio. O incremento tecnológico em si sempre esteve a serviço da mobilidade e da hospitalidade de tais espaços, mas não no advento produtivo e preservacionista dos mesmos. O turismo bem como a sua atividade se materializa como metadisciplina, e não como interdisciplina; espaço transversal onde a prática educativa se processa a favor da emancipação e na consolidação da cidadania dos locais, e no intercâmbio cultural com os visitantes.

Em síntese, não se pode desvincular prática turística da prática educativa. As duas se processam em conjunto em espaços não só turísticos, mas em espaços não formais de ensino em toda sua totalidade, buscando não só o seu produto material, que está vinculado a uma expansão (exponencial) de uma atividade econômica importante e que conforma uma força de trabalho especializada nos ramos da gastronomia, lazer e hospitalidade;mas na sua imaterialidade (ou produto imaterial) que está vinculado à reprodução sócio-política e ideológica dos sujeitos sociais, ou seja, na prática solidária na conservação de patrimônios turísticos (históricos ou não, material ou imaterial) e educativos, que identificam e que contam de forma cíclica a história de um povo ou de território (SANTOS, 1995; TEIXEIRA, 2014).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.

CLIC FOLHA. Mais de 30% da Muralha da China desaparecem. Disponível em: https://www.clicfolha.com.br/noticia/47509/mais-de-30-da-muralha-da-china-desapareceram

GOBIERNO DE MENDOZA. Conocer Mendoza como mendocinos. Editora de la Universidad Nacional de Cuyo. Lujan de Cuyo, Mendoza - República Argentina, 2013.

PORTAL G1. Duas turistas dos EUA vandalizam Coliseu de Roma e tiram selfie. Disponível em: https://g1.globo.com/turismo-e-viagem/noticia/2015/03/duas-turistas-dos-eua-vandalizam-coliseu-de-roma-e-tiram-selfie.html

RIBEIRO, Marcelo e SANTOS, Eurico de Oliveira. Turismo cultural como forma de educação patrimonial para as comunidades locais. In: Itinerarium, v.1, 2008, p.1-12. Disponível em: https://seer.unirio.br/index.php/itinerarium/article/view/137/108

SANTOS, Milton. Metamorfoses do espaço habitado. 3ª ed. São Paulo - Editora HUCITEC. 1994.124 pag.

_____________ A Questão do meio Ambiente: desafios para a construção de uma perspectiva transdisciplinar. In: Anales de Geografía de la Univerdad Complutense de Madrid, 1995.nº.15pp-695-705.

______________ Técnica, Espaço e Tempo. Globalização e meio técnico-científico-informacional. São Paulo: Edusp, 2009. 176p.

TEIXEIRA, Michael Hermann Garcia. A Cozinha como espaço não formal para o Ensino de Ciências. Edição de MHG Teixeira: Lumiar/Nova Friburgo-RJ. Clube Autores/Alphagraphics: São Paulo-SP, 2014.