Resenha do Livro:  A Grande Transformação : as origens da nossa época-Karl Polanyi

13/12/2018

Nascido em Viena - Austria 1886 e Ontário 1964.

Foi um filósofo e historiador da economia e antropólogo húngaro, conhecido por sua oposição ao pensamento econômico tradicional. 

Na qualidade de socialista cristão e refugiado da perseguição fascista em Viena em 1934, escreveu este livro, publicado originalmente em 1944 e considerado sua mais relevante e impactante obra, se tornou um modelo para a sociologia histórica.

Polanyi é lembrado por ter sido o fundador do substantivismo, uma abordagem na linha da antropologia econômica que destaca as relações entre economia, sociedade e cultura. A tese foi proposta em sua obra A Grande Transformação, mas, por ir de encontro às correntes dominantes do pensamento econômico da época, acabou sendo mais bem aceita pela antropologia e pela sociologia.

Suas teorias também fundamentaram o movimento sócio-filosófico denominado democracia econômica.

O livro é uma análise profunda, do que foi a revolução liberal que varreu o mundo ocidental no século dezenove, e quais foram e ainda são as conseqüências desta revolução para o século vinte.

A idéia central é que a economia de mercado, que na realidade nunca foi tão liberal assim, foi um fenômeno específico dos novecentos, sem muitas raízes no passado mais remoto e sem condições de sobreviver ao século vinte.  

Segunda parte - Ascensão e Queda da Economia de Mercado 
1. O Moinho Satânico
Capitulo 3 - "Habitação versus Progresso" 

A Revolução Industrial do século XVIII, trouxe progresso no sentido dos instrumentos de produção, mas uma terrivel desarticulação na vida das pessoas comuns.

"Essa desarticulação, mostra que a ideologia liberal falhou terrivelmente, vez que um processo de mudança não-dirigida, cujo ritmo é considerado muito apressado, deveria ser contido, se possível para salvaguardar o bem-estar da comunidade." (p.51)

O exemplo dado pelos enclausures (cercamentos de campos abertos) para converter a terra arável em pastagem durante o primeiro período Tudor.

"Habitação versus Progresso" 

Um documento de 1607, publicado pelo Reino tratando sobre o problema cercamentos de campos abertos, dizia: "o homem pobre terá satisfeito o seu objetivo - Habitação, e o nobre não ficará prejudicado em seu desejo - Progresso." (p.52).

O tecido social estava sendo destruído; aldeias abandonadas e ruínas de moradias humanas testemunhavam a ferocidade da revolução, ameaçando as defesas do país, depredando suas cidades, dizimando sua população, transformando seu solo sobrecarregado em poeira, atormentando seu povo e transformando - homens e mulheres descentes numa malta de mendigos e ladrões.

A política dos Tudors e dos primeiros Stuart - a legislação anticercamento

A Inglaterra suportou, sem grandes danos, a calamidade dos cercamentos apenas porque os estadistas Tudors e os primeiros Stuarts usaram o poder da Coroa para dimimuir o ritmo do processo de desenvolvimento econômico, até que ele se tornou socialmente suportável - utilizando o poder do governo central para socorrer as vítimas da transformação e tentando canalizar o processo de mudança de forma a tornar o seu curso menos devastador (p.57).

O propósito dessas medidas não pode ser visto precisamente na sua ineficácia em parar a linha de desenvolvimento, a sua direção, mas naquilo que elas alcançaram, que foi a diminuição/alteração do ritmo da mudança.

A comparação entre o ritmo da mudança e o ritmo do ajustamento decidirá o que deve ser visto como resultado líquido da mudança.(p.56)

Cerca de 150 anos mais tarde, uma catástrofe similar, sob a forma de Revolução Industrial, ameaçou a vida e o bem - estar do país.

Nesse período (Revolução Industrial), foi ainda o progresso, na sua escala mais grandiosa, que acarretou uma devastação sem precedentes nas moradias do povo comum". (p.57-58) As pessoas oriundas do campo, se aglutinavam nas favelas e em outros lugares precários.

A característica básica dessa Revolução foi o estabelecimento da economia de mercado. motivação do lucro passa a substituir a motivação da subsistência." (p. 60)

É unânime a referência às condições sociais da Revolução Industrial como um verdadeiro abismo de degradação humana.

A Revolução Industrial, causada pelo grande aumento na produção industrial, ocasionou impactos sérios na vida dos ingleses, porém nada foi feito para salva-los, tanto é que os impactos foram terríveis.

Mas, enquanto de um lado avançava a idéia dos mercados, de outro instituições tentavam controlar esse avanço, principalmente em relação ao trabalho, à terra e ao dinheiro.

Enfim, "a sociedade se protegeu contra os perigos inerentes a um sistema de mercado auto-regulável e, este foi o único aspecto abrangente na história desse período." (p.98)

Sociedades e Sistemas econômicos 

Anteriormente a nossa época nenhuma economia existiu que fosse controlada e regulada por mercados. Embora a instituição do mercado fosse bastante comum desde a Idade da Pedra, seu papel era apenas secundário/subordinado na vida econômica.

"A economia de mercado é uma estrutura institucional, que nunca esteve presente, a não ser em nosso tempo e, mesmo assim, ele estava apenas parcialmente presente." (p.56). Pressupostos subjacentes ao sistema de mercado:

Paradigma do selvagem barganhador como axioma das ciências - Influenciou a geração de Adam Smith - A divisão do trabalho na sociedade dependia da existência de mercados ou, da "propensão" do homem de barganhar, permutar e trocar uma coisa por outra." (p. 62-63) O que mais tarde dá origem a figura do "Homem Econômico", o homem em intensa relação com a economia.

É falso, pois, o que realmente origina a divisão do trabalho são fatores ligados ao "sexo, geografia e capacidade individual" (p.63).

Este paradigma induziu os sucessores da geração de Adam Smith a confinar seus interesses a período da história, comparativamente recente, no qual a permuta e a troca foram encontrada em alguma escala considerável, e a um abandono de qualquer interesse na cultura do homem "não- civilizado" como irrelevante para se compreender os problemas da nossa era.(p.64) 

Pesquisa antropológica sobre o papel da economia em formas de sociedade pré-modernas, demostrando que a "economia do homem, como regra, está submersa em suas relações sociais." O sistema econômico é dirigido por motivações não econômicas.(p.65) Ele é mero acessório da organização social.

A atividade econômica exercia uma função social e, dessa forma, ajudava a sociedade a constituir - se como um todo. O trabalho estava incrustado nas relações sociais. A produção e a distribuição de bens nas sociedades tribais, feudais e mercantis não criaram um sistema econômico distinto.

Tipos de sistemas econômicos que existiam antes da ascensão de uma sociedade baseada na economia de mercado livre:

  1. Redistribuição: Comércio e produção é voltada para uma entidade central, como um líder tribal ou senhor feudal e, em seguida, redistribuídos aos membros da sua sociedade. 
  2. Reciprocidade: A troca de mercadorias é baseado em trocas recíprocas entre as entidades sociais. Em um nível macro isso incluiria a produção de bens de presente a outros grupos. 
  3. Domestidade: As economias onde a produção é centrada em torno de produção familiar individual. As unidades familiares produzem alimentos, produtos têxteis e ferramentas para seu próprio consumo.

Dessas formas econômicas dependiam os princípios sociais da Centralização e Simetria e Autarquia (Auto-Suficiência). 

Os sistemas econômicos, desde o fim do feudalismo, principalmente na Europa Ocidental, se pautaram em fundamentos como o de reciprocidade, ou redistribuição, ou domesticidade, ou alguma combinação dos três, institucionalizados com ajuda de uma organização social a qual fez uso dos padrões de simetria, centralidade e autarquia. "Dentro dessa estrutura, a produção ordenada e a distribuição dos bens era assegurada através de uma grande variedade de motivações individuais, disciplinadas por princípios gerais de comportamento. Entre essas motivações, o lucro não ocupava lugar proeminente." (p.75) .

Os costumes e a lei, a magia e a religião cooperavam para induzir o indivíduo a cumprir as regras de comportamento, as quais, eventualmente, garantiam o seu funcionamento no sistema econômico.

No sistema mercantil (a partir do sec. XVI), os mercados passaram a ser mais numerosos e importantes, tornando - se a preocupação central dos governos, contudo, não havia sinal de que os mercados passariam a controlar a sociedade humana. Estava ausente a ideia de um mercado auto- regulável.

Evolução do Padrão de Mercado 

Mercado é um local de encontro com a finalidade de permuta ou compra e venda.

..."o padrão de mercado, que relaciona- se a um motivo peculiar próprio, o motivo de barganha ou de permuta, cria uma instituição específica, o mercado".(p.77)

O "controle do sistema econômico pelo mercado é conseqüência fundamental para toda a organização da sociedade: significa, nada menos, dirigir a sociedade como se fosse um acessório do mercado (p.77).

" EM VEZ DE A ECONOMIA ESTAR EMBUTIDA NAS RELAÇÕES SOCIAIS, SÃO AS RELAÇÕES SOCIAIS QUE ESTÃO IMBUTIDAS NO SISTEMA ECONÔMICO." (p.77) A economia, se afirma como fator preponderante para o convívio social, antecedendo qualquer outro critério. Daí a afirmação, "...uma economia de mercado só pode funcionar numa sociedade de mercado" (p.77).

"Foi crucial o passo que transformou mercados isolados numa econômica de mercado, mercados reguláveis num mercado auto-regulável." (p.77)

"A presença ou a ausência de mercados ou dinheiro não afeta necessariamente o sistema econômico de uma sociedade primitiva" (p.78). "Os mercados não são instituições que funcionam principalmente dentro de uma economia, mas fora dela" (p.78).

Procurando as origens do comércio, "o ponto de partida deveria ser a obtenção de bens distantes, como numa caça". (79) "Do ponto de vista econômico, os mercados externos são algo inteiramente diferentes do mercado local e do mercado interno". (p.80)

Três espécies de comércio revelado por pesquisa histórica:

O externo - realizava a troca de bens trazidos de terras distantes. Sua primeira forma existiu durante muito tempo sem um mercado competitivo, baseado no principio de reciprocidade. Encorajava o uso de dinheiro. Tendia a concentrar-se em cidades, especialmente em portos, entretanto fugia a regulamentação local. Num estágio posterior os mercados se tornaram predominantes na organização do comercio exterior.

O local- no qual se permutavam bens produzidos em comunidades locais. As pessoas produziam de acordo com as suas próprias necessidades, mas os seus excedentes, os bens que não utilizariam, eram canalizados para o mercado a fim de serem trocados por outros bens. Eram estritamente regulados. Envolvia permuta e regateio, sem que pressupusesse necessariamente dinheiro. Acabaram por se difundir um pouco por todo o lado. Apresentavam a mesma estrutura básica mas não substituíam as atividades econômicas tradicionais de reciprocidade, redistribuição e de domesticidade.

Comércios separados e complementares. Não foram o ponto de partida para o comércio interno a nível nacional.

Comércio Interno - é essencialmente competitivo. Inclui, além de trocas complementares, um número maior de trocas nas quais mercadorias similares, de fontes diferentes, são oferecidas em competição umas com as outras. Na Europa Ocidental, o comércio interno em escala nacional foi tornado possível graças a intervenção do Estado.

A índole local dos mercados internos foi sendo progressivamente anulada pelas políticas mercantilistas adotadas pelos monarcas. Tal fenômeno começou por ocorrer na Inglaterra e na França. Mais tarde, seria o poder do Estado exercido pela burguesia que removeria as barreiras tradicionais, os costumes locais, bem como os direitos comunitários herdados, acabando por criar o sistema de mercado livre.

A estruturação dos mercados regionais num mercado único, independente e auto-regulável foi fruto de uma criação artificial, trazida pelo poder político exercido sobre o corpo social, acompanhando um fenômeno igualmente artificial, a produção industrial em fábricas.

Durante a Revolução Industrial, pela primeira vez na história, a sociedade tornou-se um acessório do sistema econômico.


O mercado auto-regulável e as mercadorias fictícias: trabalho, terra e dinheiro 

"..os mercados nada mais eram do que acessórios da vida econômica. Como regra, o sistema econômico era absorvido pelo sistema social" (p.89)

Durante o sistema mercantil (mercantilismo), quando os mercados se desenvolveram muito ocorre uma tensão entre o controle de administração centralizada é a os interesses do mercado. "De fato , as regulamentações os mercados cresceram junto" (89).

"Uma economia de mercado é um sistema econômico controlado, regulado e dirigido apenas por mercados; a ordem na produção e distribuição dos bens é confiada a esse mecanismo auto-regulável." (p.89) Isso porém, ocasiona uma disputa no ser humano, a afim de sempre lucrar e ganhar mais.

Auto-regulação, "significa que toda a produção é para a venda no mercado, e que todos os rendimentos derivam de tais vendas." (p.90) Há também, mercados "para todos os componentes da indústria, bens, trabalho, terra e o dinheiro, sendo seus preços chamados, respectivamente, preços de mercadoria, salários, aluguel e juros." (p.90). Exige a separação da sociedade em esferas políticas e econômicas.

O mercado auto-regulável foi uma invenção humana nova, sem paralelo na História. Porém, "nova" não significa "progressista".

A formação dos mercados não serão inibidas por nada, e os rendimentos serão formados através das vendas. Nem o preço, nem a oferta, nem a demanda devem ser fixados ou regulados.

Sendo o mercado auto-regulável, somente ações e medidas políticas que assegurem esse pretexto, é que terão validade, a fim de fazer o mercado a única figura organizadora no âmbito econômico.

O sistema mercantil (mercantilismo), mesmo com toda a sua tendência em direção ao comércio, impedia que o trabalho e a terra, os bens básicos de produção se tornassem mercadorias. Esse mesmo mercantilismo, diferentemente do mercado auto-regulável, defende a intervenção do Estado na economia, além disso, o mercantilismo estava preocupado com o desenvolvimento do pais em relação ao seus recursos.

A transição do Absolutismo (déspota esclarecido) para um sistema político democrático significou também a mudança de mercados regulamentados para auto- reguláveis, ao final do sec. XVIII.

Os mercados de trabalho, terra e dinheiro essenciais para um economia de mercado, passam a ser organizados em mercados, embora não sejam mercadorias ( não são produzidos para venda no mercado). Esta ficção tornou- se o princípio organizador da sociedade.

Embora a nova organização produtiva tenha sido introduzida pelo mercador, enquanto a máquina foi uma ferramenta barata e não qualificada, não houve mudança na relação relação entre mercador e produção.

O aparecimento de máquinas especializadas, mudou completamente a relação do mercador com a produção, "a produção industrial deixou de ser um acessório do comércio organizado pelo mercador como proposição de compra e venda" (p.96), os investimentos a longo prazo começam a aparecer, ciente dos riscos que poderiam estar sujeitos, a "ampliação do mecanismo de mercado aos componentes da indústria - trabalho, terra e dinheiro, foi a conseqüência inevitável da introdução do sistema fabril, numa sociedade comercial " (p.97), fazendo com que inevitavelmente o trabalho, terra e o dinheiro se tornassem mercadorias, mesmo que não mercadorias reais, pois não eram produzidas para venda no mercado. Esta ficção tornou- se o princípio organizador da sociedade.

Nenhuma sociedade suportaria os efeitos de um tal sistema de grosseiras ficções, a menos que sua substância humana natural, assim como sua organização de negócios, fosse protegida contra os assaltos desse moinho satânico. (p.95)

Mas, enquanto de um lado avançava a idéia dos mercados, de outro instituições tentavam controlar esse avanço, principalmente em relação ao trabalho, à terra e ao dinheiro. Enfim, "a sociedade se protegeu contra os perigos inerentes a um sistema de mercado auto-regulável e, este foi o único aspecto abrangente na história desse período." (p.98)

Não há somente uma causa para os acontecimentos da Revolução Industrial, todas estão juntas num mesmo contexto.

Impacto da máquina numa sociedade comercial. Não foi as máquinas que causou esta mudança, mas quando elas começaram a ser usadas "para a produção numa sociedade comercial, começou a tomar corpo a idéia de um mercado auto-regulável." (p.59) Elementos envolvendo esse mercado, geraram importantes conseqüências para o sistema social, o capitalismo industrial tomava espaço.

A produção das máquinas numa sociedade comercial envolve uma transformação que é a da substância natural e humana da sociedade em mercadorias. A desarticulação causada por tais engenhos deve desorganizar as relações humanas e ameaçar de aniquilamento o seu habitat.

"Sistema de mercado" - "Todas as rendas devem derivar da venda de alguma coisa e, qualquer que seja a verdadeira fonte de renda de uma pessoa, ele deve ser vista como resultante de uma venda." (p.60)

Relembra que as formas primevas de vida econômica, definidas pela reciprocidade, pela redistribuição e pela domesticidade, não incluíam mercados.

"Os mercados nada mais eram do que acessórios da vida econômica. Como regra, o sistema econômico era absorvido pelo sistema social" (p.89)

Sistema auto- regulável - "Uma economia de mercado é dirigida pelos preços do mercado e nada além dos preços do mercado." (p.62).