Série Ciganos - Parte II: Porajmos

25/01/2019

O Holocausto Cigano.

A mais selvagem e bárbara perseguição aos ciganos de que se tem notícia, em toda a História da Humanidade, ocorreu não em séculos passados, entre povos então ditos "primitivos" ou "selvagens", ou no Brasil, mas em pleno século XX, no continente luz da humanidade, na Alemanha, país que se dizia "civilizado". As únicas vítimas do terror nazista que costumam ser lembradas, no entanto, são apenas os judeus, e quase nunca os ciganos. Enquanto hoje a bibliografia sobre o holocausto judeu é imensa, não faltando inclusive museus e memoriais especialmente construídos para lembrar este triste genocídio, o holocausto cigano sempre foi considerado um fato de menor importância. Os documentos históricos provam que não foi bem assim e que, lamentavelmente, ao lado de cerca de seis milhões de judeus, nos mesmos campos de concentração, nas mesmas câmaras de gás, nos mesmos crematórios, ou então fora deles num lugar qualquer da Europa, foram massacrados também cerca de 250 a 500 mil ciganos. Só atualmente começaram a ser publicados artigos e ensaios, inclusive por autores alemães da geração pós-guerra, sobre este "holocausto esquecido", o holocausto cigano, que os intelectuais ciganos de hoje preferem chamar de "porajmos‟, para diferenciá-lo do holocausto judeu.

Mas, a perseguição aos ciganos e outros povos não ocorreram de repente com a ascensão do nazismo. Autores europeus citam três fatores que facilitaram a perseguição aos ciganos na Alemanha antes e durante o Nazismo.

  1. O já tradicional ódio dos alemães e de outros europeus aos ciganos, existente já desde o Século XV; 
  2. Os arquivos desde o final do séc. XIX existentes sobre ciganos na polícia criminal e;
  3. As teorias de antropólogos, psiquiatras e médicos sobre "higiene racial" e "biologia criminal".  O fortalecimento da concepção eugenista.

As políticas anticiganas e segregacionistas não eram iguais em todo território alemão. Em Munique, na Bavária, já existia em 1899 criou-se um Serviço de Informação Cigana que registrava todos os ciganos do Estado e vigiá-los. A polícia local tinha tais informações e que se destinava a ajudar na "erradicação da praga cigana‟. Em 1926, a Bavária editou uma lei que tornou obrigatória a vida sedentária e condenou a dois anos de trabalhos forçados os ciganos que não estavam regularmente empregados. Logo depois tal  lei, em 1929, passou a ser válida em toda a Alemanha. Antes disto, tanto a Gestapo como a KriptoPolizei obrigavam os "zigeuners" a andarem sempre com um documento de identidade, com retrato, impressões digitais e outros dados pessoais. Alguns anos depois foi criado o Serviço Central de Combate à Praga Cigana, órgão nacional que incorporou o Serviço de Munique e outros semelhantes então existentes. Este serviço anticigano foi extinto em 1947, mas recriado em 1953, embora com outro nome; definitivamente extinto foi somente em 1970, vinte e cinco anos após o término da II Guerra Mundial. 

Da perseguição, passando para segregação e finalizando para o extermínio.


A diferença era que agora os ciganos passaram a ser perseguidos - e depois exterminados - também por motivos raciais, e não apenas por serem considerados associais ou criminosos natos. Embora os alemães tenham negado isto após a II Guerra Mundial, quando foram obrigados a pagar indenizações às vítimas perseguidas por motivos raciais (admitindo-se como caso único os judeus), e embora tenham sempre afirmado que os ciganos foram perseguidos por serem associais, criminosos ou espiões, e não por serem de uma raça diferente, não resta a menor dúvida que ambos os fatores pesaram na perseguição. Documentos e ensaios "científicos" da época nazista comprovam, sem sombra de dúvida, que não somente os judeus, mas também os ciganos eram considerados membros de "raças" diferentes consideradas perigosas, porque poderiam contaminar a pureza racial "ariana‟. Para esta justificativa "racial", a Alemanha pôde contar com vários médicos, biólogos e antropólogos. 

Em Auschwitz, sob a chefia do médico conhecido como Todesengel, Josef Menguele, muitas ciganas foram suas vítimas costumazes em seus experimentos, principalmente daquelas mulheres ciganas que tinham alta taxa de natalidade, e com alta incidência de gêmeos.

Então, os ciganos foram 'objetos' de estudo para aumentar a população ariana.

Mas apenas para lembrar que a intolerância aos ciganos era notória, que tais estudos higienistas fundamentaram muito o que foi escrito por Adolf Hitler em Mein Kampf.

Em 1937, foi a vez da Psiquiatria ser a força motriz da defesa eugenética com Centro de Pesquisa para Higiene Racial e Biologia Populacional, com sede em Berlim, onde se dedicavam intensivamente às pesquisas ciganas. Somente o nome deste Centro já é suficiente para provar que os ciganos eram considerados uma "raça‟ diferente. 

Entre as pessoas nocivas estavam não apenas os deficientes físicos e mentais, mas também os "associais hereditários" (mendigos, vagabundos, prostitutas, alcoólatras, homossexuais, desempregados crônicos, etc; como se estas características fossem transmissíveis hereditariamente!), e as minorias raciais nocivas, como os ciganos e os judeus. Então, era preciso "limpar" a raça humana, 

A total eliminação física só seria proposta alguns anos depois. Estima-se que na Alemanha nazista cerca de 400.000 pessoas foram esterilizadas, entre as quais muitos ciganos e ciganas.

Foi nesta época que os biólogos alemães tentaram deseperadamente descobrir, com fins práticos, quais eram as características "raciais" ciganas, já que na maioria dos casos era impossível distinguir os ciganos do resto da população alemã através de características físicas específicas, além da alta taxa de natalidade. Mas, tanto a Psiquiatria como a Biologia, com seus profissionais, nunca foram capazes de descrever estas características. Daí porque, na Alemanha daquele tempo, era classificado como...

  •  "Z" de "Zigeuner", ou seja "cigano puro" todo indivíduo com quatro ou três avós "verdadeiros ciganos";
  •  "ZM+" ou mestiço em primeiro grau era classificado quem tinha menos do que três avós "verdadeiros ciganos"; 
  • "ZM-" era o mestiço em segundo grau que tinha pelo menos dois avós "ciganos-mestiços"; 
  • avó ou avô "verdadeiro cigano" era aquele que sempre tinha sido reconhecido, pela opinião pública, como "cigano", ou seja, no final das contas tratava-se de critérios subjetivos, e não científicos. 

No início dos anos 1940 alguns nazistas intencionavam ainda conservar para a posterioridade uma "amostra" de sinti "puros", melhor dito, oito famílias Sinti que seriam confinadas numa espécie de "reserva cigana" a ser criada na Hungria e administrada pelo Instituto do Patrimônio Histórico. Esta "reserva cigana" nunca chegou a se tornar realidade; no final, também estes ciganos "puros" terminaram nos campos de concentração em trabalhos forçados ou para o extermínio. 

"Fomos capazes de provar que mais do que 90% dos assim chamados ciganos nativos são mestiços...... Outros resultados de nossas investigações permitem-nos caracterizar os ciganos como um povo de origens etnológicas totalmente primitivas, cujo atraso mental os torna incapazes de uma real adaptação social..... A questão cigana só pode ser resolvida reunindo o grosso dos mestiços ciganos associais e imprestáveis em grandes campos de trabalho e mantendo-os trabalhando, e parando para sempre a futura procriação desta população mestiça" (Relato de um dos médicos psiquiatras do  Centro de Pesquisa para Higiene Racial e Biologia Populacional).

Para cada cigano, tal 'Centro' emitia então um "Certificado", assinado pelo médico ou biólogo responsável no qual constavam além do nome e dados pessoais, o grau de ciganidade. Quase sempre o diagnóstico era: "mestiço cigano", o que na prática correspondia a uma condenação à esterilização ou à deportação e internação (e posterior extermínio) em campos de concentração.

Um dado interessante neste dado histórico foi o estudo de doutoramento da principal assistente do médico psiquiatra responsável pelo  Centro de Pesquisa para Higiene Racial e Biologia Populacional. Eva Justin, na época, era apenas uma simples enfermeira, sem qualquer formação acadêmica, mas que apesar disto sonhava com o título de Doutor. Para obtê-lo escreveu uma "tese‟ sobre a suposta inadaptabilidade social de crianças ciganas, estudando durante apenas seis semanas um grupo de crianças ciganas internadas numa espécie de orfanato, sem contato com seus pais ou outros ciganos adultos. Obviamente chegou à conclusão que a "boa educação" recebida neste internato de nada adiantou e que as crianças continuaram tão associais como antes; ou seja, para ela, crianças ciganas eram simplesmente incorrigíveis, eram associais e criminosos natos pela eugenética. Com a "tese" defendida em 1943, na Universidade de Berlim. Poucos dias após a obtenção do diploma, as 39 crianças ciganas do orfanato, as cobaias de sua pesquisa e que até então tinham sido poupadas, foram deportadas para Auschwitz; somente quatro sobreviveram ao extermínio.

Ainda hoje o holocausto cigano é pouco conhecido do grande público. Também em documentários e em comemorações das vítimas do holocausto nazista, ou em museus e monumentos construídos em sua homenagem, muitas vezes são lembrados apenas os judeus e quase nunca os ciganos. Atualmente, no entanto, em livros e artigos que tratam do holocausto - boa parte dos quais escritos por alemães - está se tornando politicamente correto falar não apenas dos judeus, mas também dos ciganos.

Ciganos alemães sintis sendo deportados para os campos de concentração em 1940.


Fonte: Frans Mooner / CERCI / Centro Nacional de Cultura Cigana-Brasil